CERP investiga a relação entre religião e políticas públicas

Por Cacilda Luna

 

Um dos mais novos centros de pesquisa da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP chegou polemizando. Criado oficialmente no final de 2021, em meio à pandemia, o Centro de Estudos da Religião e Políticas Públicas (CERP), ligado ao departamento de Economia, vem mexendo com um assunto que promete muita discussão, principalmente em ano de eleições: como valores e inclinações religiosas afetam as políticas públicas no Brasil. 

 

Num país em que a comunidade evangélica cresce a olhos vistos, vincular a isenção tributária do setor religioso ao crescimento de templos e ao aumento das bancadas evangélicas nas casas legislativas é no mínimo provocador. “Cada eleição que passa assistimos a um aumento da bancada evangélica. Na nossa pesquisa, constatamos que esse aumento tem a ver com a expansão geográfica dos templos, que por sua vez está ligada aos incentivos fiscais”, revela o professor da FEA, Raphael Corbi, coordenador do centro de estudos.  

 

Raphael Corbi é um dos autores do estudo “A Economia Política do Pentecostalismo: Uma Análise Estrutural Dinâmica”, que já foi objeto de reportagens publicadas no Estadão e no Estado de Minas, em maio de 2021. O estudo foi feito em conjunto com o professor da Norwegian Business School Fábio Miessi Sanches (ex-FEAUSP/ex-Insper). 

 

O docente da FEA afirma que a isenção fiscal beneficiou muito mais as igrejas evangélicas do que as igrejas católicas. “A gente percebe no estudo uma expansão bem rápida nos últimos 20, 30 anos de algumas denominações evangélicas mais novas, e uma expansão mais lenta da Igreja Católica e também de denominações evangélicas mais antigas, mais tradicionais”. 

 

Segundo Raphael Corbi, o benefício tributário para as igrejas de qualquer denominação foi conferido pela Constituição de 1988. Mais recentemente, foi promulgada a Emenda Constitucional 116 que expande a isenção do IPTU para imóveis alocados para as igrejas. 

 

Com a ajuda de modelos matemáticos, os economistas projetaram como seria a expansão das igrejas evangélicas no país caso elas precisassem pagar impostos. O estudo usou dados fornecidos pelas igrejas à Receita Federal. Com base na alíquota de 34%, que seria a taxa média cobrada das demais atividades, os pesquisadores chegaram à conclusão que o número total de templos no Brasil poderia ser até 74% menor. 

 

O estudo também cruzou os dados de expansão das igrejas com o voto na bancada evangélica, utilizando informações do TSE. Os pesquisadores mediram a variação de votos que os candidatos recebem antes e após a abertura de novas igrejas em determinadas regiões. A conclusão foi de que após uma igreja ser aberta, os candidatos desse grupo religioso recebem 7% a mais de votos. 

 

“Vamos comparar duas cidades parecidas. Uma tem uma igreja evangélica e a outra não tem. A gente estima que, na média, a cidade com a igreja evangélica teria por volta de 7 pontos percentuais de votos mais do que a cidade sem nenhuma igreja”. Mas esse fenômeno não se verifica para as igrejas católicas, cuja expansão não se traduz em votos, de acordo com o estudo. Outro dado importante apontado por Corbi é que sem a isenção tributária a bancada evangélica seria encolhida em 1/3.   

 

Raphael Corbi faz questão de deixar claro que o CERP não é ligado a nenhuma religião e nem pretende emitir opiniões acerca dos valores pregados por qualquer denominação religiosa. “Ele é simplesmente um centro de estudos que busca compreender como os movimentos afetam a sociedade e, em particular, as políticas públicas”. Segundo ele, as pessoas se comportam influenciadas por convicções religiosas. Tem religiões que não aprovam o consumo de álcool, por exemplo. Isso tende a afetar o consumo. Assim como determinadas orientações também afetam o comportamento político, o que pode influenciar o voto.  

 

O docente ressalta que o CERP se dedica a estudar o assunto religião sob o olhar científico. “No Brasil, não tem muita gente estudando religião baseada em dados e em teorias bem estabelecidas. Tem muito achismo. A gente precisa de uma abordagem mais científica. Temos que entender como a religião impacta a vida do país como um todo”, conclui o economista Raphael Corbi. 

 

CERP – Centro de Estudos da Religião e Políticas Públicas 

Site: https://sites.usp.br/cerp/  

 

Data do Conteúdo: 
Segunda-feira, 6 Junho, 2022

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