Ceats: empreendedorismo e valor socioambiental

Cada vez mais o empreendedorismo social cresce no mercado. A necessidade de mudar a realidade socioambiental e, ao mesmo tempo, conseguir retorno financeiro, se faz presente, tendo em vista a atual situação de escassez de recursos e busca por formas alternativas. Quando o empreendedor consegue enxergar outras dimensões no seu negócio além do lucro, ele é capaz de gerar valor à sociedade. E foi para ajudar nesse objetivo que surgiu o Centro de Empreendedorismo Social e Administração em Terceiro Setor da Universidade de São Paulo (Ceats). Com reconhecimento nacional, o Centro contribui para a formação de uma nova geração de gestores que objetivam transformar seus empreendimentos em negócios de impacto, com um propósito que vai muito além do retorno econômico.

O Ceats foi criado em 1998, pela professora Rosa Maria Fischer, como um núcleo da Fundação Instituto de Administração (FIA), atendendo a uma grande demanda da época. Nos anos 90, a reforma do Estado estava em pauta, e a necessidade de criar instâncias de participação da sociedade civil havia surgido. Uma figura jurídica foi criada, formalizando as Organizações da Sociedade Civil (OSC). Mas isso não era o suficiente, e começou-se a debater responsabilidade social corporativa, ou seja, como as empresas poderiam contribuir para um desenvolvimento sustentável e estabelecer parcerias com essas organizações.

A esse contexto se somava a necessidade premente de auxiliar o Estado, que era incapaz de executar todas as suas políticas públicas isoladamente, precisando agregar medidas das OSCs e de empresas privadas. Analisar as alianças e parcerias intersetoriais para um desenvolvimento sustentável era uma prioridade e, diante disso, a professora Rosa Fischer viu a necessidade da FEA abrir-se para esse campo. Assim, resolveu fundar um centro que ajudasse a aperfeiçoar a administração das OSCs e a gestão social dos empreendimentos, o Ceats, primeiro na FIA, e logo  incorporado como um núcleo de extensão da FEAUSP.

A atuação do Ceats se faz por várias vias. Segundo a professora Graziella Comini, uma das atuais coordenadoras, o centro auxilia as iniciativas de empreendedorismo social independentemente de ser uma empresa, uma organização da sociedade civil ou o próprio Estado. Ela destaca que o ator social menos estudado são as OSCs, e lembra que há muito a ser feito: “Profissionalizar, fazer com que elas realizem avaliações dos projetos sociais, estimular atuações menos assistencialistas e mais de empoderamento da população de baixa renda, dentre outras. Por isso procuramos analisar as necessidades, criando pesquisas, cursos, seminários voltados para essas iniciativas que têm a intenção de transformar uma realidade socioambiental, mas não sabem exatamente como”. 

Muito mais que apenas um centro de pesquisa, o Ceats trabalha com algo chamado “pesquisa-ação”. Graziella explica que o pesquisador não fica apenas observando o fenômeno e analisando resultados, ele age junto com os sujeitos da pesquisa para pensar alternativas de forma colaborativa. O propósito do envolvimento do sujeito no próprio estudo é fazer com que o processo seja refletido junto, colocando em prática as teorias, e não apenas se restringindo aos estudos acadêmicos. 

Uma recente realização do Ceats, conta a professora citando um exemplo prático, foi um levantamento, juntamente com organizações da sociedade civil, em que foram mapeadas as iniciativas dessas organizações para melhorar a captação financeira, assim possibilitando a ampliação de suas atividades. Como o grupo tem estudado muito a questão de negócios de impacto, eles fizeram esse debate em conjunto com as OSCs, realizando entrevistas com ONGs bastante renomadas na área, workshops envolvendo empreendedores sociais e lideranças, entre outras atividades. Ao final, foi produzido um material chamado “Lições da Prática”, preparado de forma colaborativa com o Instituto de Cidadania Empresarial (ICE) e com a Ashoka Empreendedores Sociais, publicando os resultados e inovações desse estudo.

Há alguns anos, as empresas passam por um momento em que precisam rever seus conceitos, cadeia de valor e propósito. Vários movimentos da sociedade, como a luta por sustentabilidade, estão ganhando espaço. Os empreendimentos precisam incluir em seus planejamentos, ações que também pensem na sociedade como um todo, e o Ceats ajuda nisso. Como um gerador de conhecimento, o núcleo vem contribuindo para o aumento da geração de valor socioambiental. 

Atualmente coordenado pelas professoras Graziella Comini e Rosa Maria Fischer, o grupo possui alunos de iniciação científica, graduandos que preparam seus trabalhos de conclusão de curso (TCCs), e também de pós-graduação - mestrado (como a mais nova criação da formação em ‘Profissional do Empreendedorismo’) e doutorado, também oferecendo disciplinas para todos esses níveis. O fomento das pesquisas que fundamentam as ideias defendidas pelo grupo são muito necessárias, assim como a formação de novos estudiosos que darão continuidade a essa linha de ação. 

Segundo a professora Graziella Comini, “o Ceats busca auxiliar na transformação de uma realidade de exclusão”.

Gente da Fea - outubro de 2017
Autora: Ingrid Luisa

 

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 16 Outubro, 2017

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