Brasil precisa retomar o discurso racional, diz Celso Amorim na FEA

Bruno Carbinatto

 

Eleito o melhor chanceler do mundo pela revista estadunidense Foreign Policy, em 2009, Celso Amorim tem extensa carreira política: foi ministro das Relações Exteriores no governo Itamar Franco, embaixador do Brasil na ONU durante o governo Fernando Henrique Cardoso, novamente chanceler no governo Lula e ninistro da Defesa no governo Dilma. O diplomata, reconhecido por sua postura ponderada e de resolução de conflitos globais, foi convidado pelo Centro Acadêmico Visconde de Cairu (CAVC) para uma palestra na FEA sobre a “A Nova Geopolítica Brasileira”, marcada por mudanças radicais no começo do governo Bolsonaro. 

Diante de um auditório lotado, o ex-chanceler fez um panorama do cenário internacional atual, marcado, principalmente, por um conflito comercial entre China e Estados Unidos, as duas maiores potências econômicas do mundo. Em meio a esse embate de gigantes, Amorim defende que a posição do Brasil deveria ser neutra: não tomar partido de nenhum lado, e sim utilizar o que for de melhor para o país. “Essa sempre foi a visão dos governos que eu participei. É preciso aprender a lidar com o equilíbrio entre essas forças”, analisa.

Segundo ele, a posição geopolítica de um país como o Brasil deveria ser a de descentralizadora, sem um polo específico: “Ao Brasil não interessa que haja uma potência hegemônica e dominadora, nem na nossa região nem no mundo. Uma estrutura mais diversificada favorece os nossos interesses”, explica.

Em retomada história, Amorim destaca a mudança profunda que ocorreu na geopolítica global nas últimas décadas: a passagem por uma bipolaridade na época da Guerra Fria, entre EUA e a União Soviética, para uma predominância americana no cenário mundial, inclusive em decisões conjuntas como as da ONU, que por muito tempo seguiram as inclinações de Washington — caso da Primeira Guerra do Golfo. No entanto, hoje, observa-se que as diversas imposições econômicas do país americano chegaram a seu limite e criou-se uma resistência, primeiramente de países como Rússia e China, e depois do resto do mundo. Assim, renasceu a tendência da multipolaridade no mundo.

Sobre o cenário político interno, Amorim se mostra preocupado com os rumos do debate público: “O mais importante que nós, verdadeiros democratas, temos que recuperar é o discurso racional. Posso concordar ou discordar de muitas coisas que foram feitas no governo Sarney, Collor ou Fernando Henrique. Mas, na maioria das vezes, havia ali um discurso racional, em relação ao qual eu poderia me posicionar”. Em um cenário de redes sociais, fake news e memes, tudo é “medo, raiva e ódio, de uma maneira simplificada que não permite debate”.

O evento contou com sessões de perguntas do público e uma sessão de autógrafos e vendas dos livros de Amorim, promovida pela livraria Saraiva.

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 13 Maio, 2019

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