Agentes sociais debatem o futuro do Brasil


Foram três dias debatendo questões que ajudarão a construir um país melhor, com a participação de diversos tipos de agentes sociais (cidadãos, empresários, dirigentes de organizações, pesquisadores e estudantes). Entre os dias 7 e 9 de junho, a FEAUSP foi palco de mais uma etapa do projeto Brasil 2035, organizado pelo Núcleo de Apoio à Pesquisa de Planejamento de Longo Prazo da USP, com o objetivo de discutir ideias para a construção da visão estratégica do futuro do país, utilizando como metodologia, cenários prospectivos.

O Seminário de Prospectiva do Desenvolvimento Brasil 2035 teve um convidado de honra: o professor Phillippe Durance, diretor da École Management & Societé/CNAM (França), especialista em planejamento de longo prazo baseado no método prospectivo. Durance disse que a prospectiva é uma prática bastante difundida na França, tanto nas empresas quanto nos órgãos públicos. Na escola que dirige, todos os anos 400 alunos estudam o método nos 11 cursos oferecidos. 

A prospectiva, de acordo com o economista francês, nasceu na França nos anos 50, pela visão do filósofo Gaston Berger. Ele teve a ideia de trabalhar com o tema numa época em que as pessoas tinham a impressão de que o tempo estava “acelerando”. “As coisas estavam sob o efeito da tecnologia, sobretudo da tecnologia nuclear”. O início da prospectiva foi marcado pela explosão da primeira bomba nuclear, em 1945. “A partir daí as pessoas tiveram a consciência de que o homem é finito. Foi um momento de transição do pensamento sobre o futuro da humanidade, a chamada era da incerteza”. 

Segundo Phillippe Durance, a prospectiva tem por objetivo “olhar longe, voltar-se para o futuro”. Mas para construir essa visão do futuro é preciso “multiplicar olhares”, colocar na mesa pessoas com opiniões diferentes sobre um mesmo assunto. O especialista francês comparou a ideia de diversidade de opiniões com o desenho geometral, no qual “o número de faces é dado pelo número de pessoas que veem o objeto”. Outro princípio do processo prospectivo, destacou, é a análise profunda, ou seja, “ir além da aparência das coisas”. Para analisar em profundidade, é preciso conhecer as coisas, colher informações e formular hipóteses, detalhou Durance, que participou dos três dias do Seminário, contribuindo com sua expertise para o processo prospectivo do Brasil 2035.

Apresentação das variáveis-chave
Nos três dias do Seminário de Prospectiva do Desenvolvimento Brasil 2035, os grupos de trabalho apresentaram e discutiram 37 variáveis-chave e suas hipóteses. Ao explicar o processo prospectivo, que teve início em abril de 2016 e deve se encerrar em setembro próximo, o coordenador do evento, prof. Antônio Luís Aulicino, enalteceu a apropriação e a contribuição dos agentes sociais.

As variáveis foram agrupadas por dimensões (política, tecnológica, econômica, educação, gestão, social, cultura, meio ambiente, e segurança e defesa). Cada grupo apresentou o nome da variável, sua descrição, o que provocou sua evolução, as tendências futuras, as rupturas previstas e as hipóteses para o cenário futuro. 

Na variável “Sociedade Brasileira”, por exemplo, os agentes visualizaram como uma das tendências futuras um aumento da segregação social devido à maior concentração de poder nas mãos de poucos. Também apontaram o predomínio de um sistema social punitivo e não regenerador. Para romper essas tendências, sugeriram um sistema de autogestão. A hipótese apontada como ideal seria uma “sociedade consciente, mobilizada, autônoma e participativa, com controle do processo produtivo, focada no coletivo, com princípios morais e éticos sólidos”.

Entre as tendências identificadas na variável “Empresas” destacaram-se a reformulação da CLT e mudança nas relações de trabalho, nas formas de remuneração e de contratação. Como ruptura, o grupo previu que as formas de entregar produtos ou executar serviços mudarão drasticamente. Na apresentação da hipótese ideal, os agentes sugeriram que a adaptação aos novos tempos seja feita de forma gradativa e estruturada, além de defenderem a ampliação do nível educacional e o desenvolvimento de competências técnicas de forma regionalizada.

Na apresentação da variável “Apoio a instituições voltadas para a inovação e o empreendedorismo”, a tendência apontada foi a de que haja novos modelos de captação de recursos. Os agentes também previram que movimentos globais de sustentabilidade forçarão o aparecimento de novos programas de fomento. Cooperar para que os investimentos públicos tenham prioridade territorial e não setorizada foi apontado como ruptura. A hipótese ideal para o grupo é de que o capital seja abundante e usado de forma planejada e estruturada, e que o empreendedorismo seja utilizado de maneira eficiente, como instrumento de política pública, gerando emprego e renda.

Privatização dos bens públicos, evasão de talentos, comprometimento do processo democrático, aumentos dos níveis de pobreza e queda do poder aquisitivo das classes C, D e E, foram as tendências futuras apontadas pelo grupo que estudou a variável “Estabilidade política e econômica”. Como rupturas futuras, os agentes identificaram, entre outras coisas, uma distribuição de renda mais equilibrada, investimento significativo em pesquisa e tecnologia, além da valorização e manutenção dos talentos. A hipótese ideal para essa variável foi a de participação direta da sociedade nas decisões políticas, por meio de plebiscitos, referendos e projetos de leis, inclusive decisões sobre alocação de recursos. Efetividade, transparência e publicidade das decisões políticas e econômicas também forma citadas como cenário ideal.

Consolidação
As próximas etapas do projeto serão consolidar as variáveis-chave e as respectivas hipóteses, construir os cenários possíveis (dentre os quais será escolhido o cenário desejável e o realizável, e simultaneamente o cenário que não queremos). Em seguida, de acordo com o professor Antônio Luís Aulicino, será definido o Plano de Ações para todos os cenários. Após verificar as ações do cenário não desejável, serão definidas as ações que mitigarão esse cenário. “A partir das ações definidas, serão formuladas as estratégias de como mobilizar a sociedade brasileira para construir em conjunto o Brasil que queremos, com o objetivo que não ocorra o Brasil não desejável”, finalizou Aulicino.

Gente da FEA - agosto de 2017
Autora: Cacilda Luna

 

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 8 Agosto, 2017

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