Vinod Vyasulu analisa desafios da Índia contemporânea

Apesar dos avanços inegáveis nas últimas décadas, Brasil e Índia ainda têm muitos desafios para enfrentar. O caminho para vencê-los, afirma o economista indiano Vinod Vyasulu, pode ser o estreitamento da relação entre os dois países. O pesquisador do International Institute for Information Technology, Bangalore esteve na FEA no dia 26 de fevereiro, onde proferiu palestra em evento oferecido pelo Centro Acadêmico Visconde de Cairu. Simpatizante e estudioso de programas governamentais brasileiros como o Fome Zero, Vyasulu acredita no intercâmbio acadêmico como maneira dos BRICs aprenderem uns com os outros. "É ótimo ver que há cada vez mais pessoas querendo aprender sobre a Índia", afirmou o docente, que tem intensificado suas visitas ao Brasil.

Intitulada "On Some Wicked Problems of Contemporary Índia", a apresentação de Vyasulu levantou importantes semelhanças e diferenças entre os dois países. "Ambos são muito grandes e difusos, com diferenças sociais, regionais e econômicas. Mas, ao contrário do Brasil, que está em uma região de paz e estabilidade, a Índia está em uma zona de conflitos", afirmou, referindo-se à relação do país com o Paquistão, tensa desde 1947, quando a Índia Britânica foi dividida nas duas nações.

"O Brasil também tem a facilidade de ter uma língua única", ressalta o docente. Segundo ele, a Índia é um país dividido em tantos grupos étnicos, religiosos e socioeconômicos, que é difícil classificar "quem pertence às minorias". "Isso dificulta também uma noção de identidade entre os indianos e implica em demandas políticas extremamente divergentes", explica. Para o economista, a Constituição, nos moldes democráticos modernos, foi sobreposta de repente a culturas milenares, e dificilmente será aceita por todas as religiões.

De acordo com Vyasulu, a Índia também passa, assim como o Brasil, por um "processo de luta contra a corrupção e de desconfiança das instituições". Mas no caso indiano, excepcionalmente, os protestos deram origem a uma nova composição partidária. Ele também cita a superlotação do transporte público - a Índia possui cerca de 1,2 bilhões de habitantes - e a poluição como problemas a serem combatidos por ambas as nações.

No setor econômico, o professor considera que há uma aproximação nunca antes vivida entre Brasil e Índia. "Temos cada vez mais empresas presentes nos dois países. As companhias farmacêuticas indianas vendem seus remédios aqui para serem usados no SUS (Sistema Único de Sáude)", exemplifica. "E isso deve crescer nos próximos anos".

Apesar dos wicked problems - problemas com contradições difíceis de explicar, segundo a definição do economista - Vyasulu vê avanços importantes na economia indiana nas últimas décadas. "Ainda que a população tenha quadruplicado nos últimos 60 anos, o país conseguiu superar a crise alimentícia e atingir a autossuficiência", conta. Hoje, destaca, a Índia é a maior produtora de leite do mundo e está estabilizando o crescimento demográfico.

No que diz respeito à educação, o economista afirma que a Índia viveu um boom desenfreado de universidades em pouquíssimo tempo. A quantidade, no entanto, não se traduziu necessariamente em qualidade e igualdade. "A Índia tem hoje um grande estoque de cientistas e doutores, mas também o maior número de analfabetos do mundo", compara.

Nicolas Gunkel
Fonte: FEA/USP

07/03/2014

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 10 Março, 2014

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