Seminário discute futuro do Brasil para a próxima década

Professores da USP debatem os obstáculos ao crescimento do país, e as principais estratégias para os transpor.

“Inação não é uma opção viável” foi a conclusão apresentada pelos palestrantes do Seminário Brasil 2020, realizado nesta segunda-feira, (3), na FEA-USP. O evento, com a participação de renomados professores da USP, trouxe reflexões acerca dos possíveis caminhos a serem seguidos para que o Brasil apresente, na próxima década, um crescimento economicamente satisfatório e ambientalmente sustentável.

As discussões propostas pelos professores foram desenvolvidas em torno de uma mesma preocupação com o futuro do país, e o legado que será transmitido aos jovens no decênio 2010-2020. Conforme as palavras do professor César Ades, da Faculdade de Psicologia da USP, o objetivo é a preparação adequada para o futuro, pois, embora essa iniciativa “não anule os imprevistos, nos permite estar no lugar adequado na hora certa”.

Otaviano Canuto, vice-presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) abriu a série de palestras apresentando tendências mundiais para a próxima década. Segundo Canuto, os próximos vinte e cinco anos serão marcados pela oposição entre dois cenários principais. Um novo padrão de crescimento econômico, movido pelo maior acesso da humanidade às tecnologias e ao capital, encontrará a barreira da transição demográfica. Fatores como as quedas das taxas de natalidade e mortalidade já vêm promovendo modificação na estrutura etária da população, aumentando o contingente de mão-de-obra.

O maior desafio a ser enfrentado será a incorporação dessa crescente mão-de-obra, de forma coordenada com o desenvolvimento da economia. Isso tudo sem agredir o meio ambiente. Para Canuto, um caminho possível para o desenvolvimento que concilie as duas realidades opostas seria a aplicação da tecnologia na produção de commodities, principalmente nos países emergentes da América Latina. “Os commodities representam uma grande oportunidade para que o Brasil aproveite seu potencial de crescimento e garanta um futuro saudável”.

Os principais obstáculos
A produtividade ainda insatisfatória, a excessiva carga tributária, o lento desenvolvimento do capital humano e as dificuldades no acúmulo de capitais foram apontados como os principais empecilhos ao crescimento econômico acelerado do Brasil nos próximos anos. A análise foi feita pelo professor Carlos Azzoni, diretor da FEA-USP.

Em comparação os Estados Unidos, os números relacionados ao crescimento da produção no Brasil têm seguido uma linha horizontal. Conforme apresentado por Azzoni, desde os anos 1980 tem havido estagnação da produtividade nacional.

Ainda com base nos números apresentados pelos norte-americanos, o Brasil, ainda que lentamente, demonstra desenvolvimento do capital humano, justificado pelo aumento do número de anos, em média, que o cidadão passa na escola. Entretanto, professor Azzoni afirma que esses dados, não necessariamente representam algo positivo, já que o aumento da escolaridade não implica em maior qualidade de ensino, e, portanto, em profissionais mais bem preparados.

Há também a questão da carga tributária, a qual, segundo Azzoni, representa uma trava para o aumento do PIB brasileiro, atrasando o crescimento do país. Pode-se acrescentar a esse quadro a dificuldade no acúmulo de capital, evidenciada pelo alto custo dos investimentos em tecnologias que aumentem a produção, e, conseqüentemente, o lucro. Para Azzoni, qualquer iniciativa visando um melhor futuro para o Brasil na próxima década deve se focar na solução desses pontos chaves, pois, do contrário, o crescimento será insuficiente.

Inação ou respostas decisivas
O professor James Wright, da FEA, descreveu o cenário ideal para o Brasil do futuro como o “consenso 2020”. Nele, os rumos tomados levariam ao desenvolvimento integrado, coordenado por um projeto político social-democrata, trazendo como conseqüência a melhoria do IDH, acelerando o crescimento do país. O professor lembra que, embora esse seja o cenário ideal, é algo complicado elaborar planos que garantam a transição para ele de forma integral, sem imprevistos. O que deve ser feito o quanto antes é “explorar os espaços que são possíveis, para conseguir uma mudança do atual para o mais próximo possível do desejável”.

Wright apontou como estratégia para atingir o “consenso” o foco em prioridades como o crescimento econômico, a adequada distribuição de renda, e a redução das desigualdades regionais. Para atingir essas metas, deve-se garantir uma educação de qualidade, fortalecer as instituições públicas e privadas e promover o crescimento de insumos sustentáveis – como um sistema de transportes aprimorado, e o desenvolvimento de matrizes energéticas renováveis.

A responsabilidade, segundo Wright, recai sobre os líderes, que devem dar respostas frente ao futuro que se aproxima. “A inação não é uma opção viável. Deve-se aprender a antecipar ameaças e oportunidades, cultivar a flexibilidade estratégica, lidar com a diversidade, para que a liderança seja decisiva e com visão inspiradora do futuro”, conclui Wright.

Data do Conteúdo: 
Quarta-feira, 12 Março, 2008

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