Relatório da WWF-Brasil destaca singularidades da produção sucro-alcooleira no Brasil e as diferenças entre análises nacional e regional

Por Luigi Parrini

A  Organização Não-Governamental (ONG) WWF-Brasil lançou nesta segunda-feira (26) relatório sobre as conseqüências da expansão do setor sucro-alcooleiro no Brasil. O evento foi realizado na Sala da Congregação da FEA-USP, dentro do ciclo Impactos Socioambientais dos Biocombustíveis, e contou com a presença de Luis Fernando Laranja, da WWF-Brasil, e dos professores Ricardo Abramovay, da FEA, John Wilkinson, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e José Goldemberg, ex-reitor da USP.

Luis Fernando Laranja, coordenador do programa "Agricultura e Meio Ambiente" da entidade, iniciou a apresentação do relatório a partir de uma análise histórica do setor sucro-alcooleiro, de forma a destacar a condição particular da cadeia nacional de produção de açúcar e álcool. "O Brasil era o único país em que um grupo dominava todos os fatores de produção: as terras, os escravos e os engenhos". Nesse ponto, o professor ainda destacou a consolidação do poder dos usineiros durante o século XX, o Pró-Álcool e o surgimento da questão ambiental.

O relatório também comenta sobre a conjuntura internacional que alçou os biocombustíveis e, entre eles, o etanol, à destaque na agenda energética global, considera o etanol como melhor alternativa energética e refuta a idéia de que haja competição da produção de cana-de-açúcar com a de alimentos na disputa por terras agricultáveis.

Outro tópico importante é a diferenciação entre as análises macro, de caráter nacional, nas quais o relatório não diagnostica impactos socioambientais significativos, e as análises micro, regionais, em que se destaca a necessidade de planos específicos de planejamento de paisagens.

Comentaristas
John Wilkinson destacou em seus comentários a interdependência sistêmica da produção de biocombustíveis, em que "todos acabam leigos na discussão do conjunto de práticas a serem tomadas". O professor considerou o relatório muito cauteloso, "uma confirmação da versão oficial do governo brasileiro e de dados de organizações que defendem o setor sucro-alcooleiro", limitado aos impactos diretos do cultivo da cana-de-açúcar.

Wilkinson reforçou a condição sui generis da produção canavieira do Brasil em comparação às do resto do mundo e a dificuldade que essa diferença cria para o estabelecimento de uma "commodity global cuja produção se encaixa em condições excepcionais de apenas um país" e defendeu a importância do casamento da produção de cana com a agricultura familiar.

A crítica a essa associação entre produção e agricultura familiar foi uma das ponderações de José Goldemberg, secretário do Meio Ambiente do Governo do Estado de São Paulo. De acordo com ele, "95% da produção nesse sistema não funciona". Goldemberg comentou sobre o trabalho da Comissão de Bioenergia estadual, em que se constata a expansão da cana sobre as pastagens de gado, e não sobre a produção alimentícia.

O professor também criticou o uso de critérios importados da Europa para a regulamentação da sustentabilidade da produção de etanol. "Não se pedem os mesmos critérios para a produção de derivados de petróleo. Suspeito da origem de tais preocupações".

Assista aqui a palestra que foi transmitida pelo site (http://www.iptv.usp.br/).

Faça Download no Relatório apresentado pela WWF aqui!

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 27 Maio, 2008

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