O processo de formação das Guianas

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Região pouco discutida pela literatura brasileira, as Guianas (ou Amazônia Caribenha), foram os últimos países da América Latina a se tornarem independentes. Para entender melhor a grande diversidade populacional e biológica da região, a FEAUSP recebeu o professor Reginaldo Gomes de Oliveira da Universidade Federal de Roraima (UFRR), que ministrou um mini curso e um seminário sobre as Guianas no contexto da Amazônia entre os séculos XVI e XIX. Os eventos foram organizados pela professora Luciana Suarez Lopes.

A grande diversidade da região

Região geograficamente muito complexa, com clima quente e úmido, e com grande parte de seu território coberto pela floresta amazônica, as Guianas sofreram um processo de colonização semelhante ao restante da América Latina e tiveram seu território dividido entre as potências europeias da época (Espanha, Portugal, Holanda, França e Inglaterra), que inicialmente estabeleceram ali plantações de cana de açúcar.

A população nativa desde o início teve um papel crucial em ajudar que os colonizadores chegassem ao interior do continente. “Essa mesma população começou a ser capturada para trabalhar nas fazendas do litoral”, explicou o professor. Posteriormente, ao final do século XIX e início do XX, da mesma forma que o restante das Américas, as Guianas receberam milhares de imigrantes, devido à abolição da escravidão. A imigração das Guianas, no entanto, caracterizou-se por ser composta de populações vindas especialmente do leste asiático, como chineses, indianos, javaneses e outros, que se misturaram à população e deram importantes contribuições históricas, linguísticas e culturais à região. “Hoje, por exemplo, a maior população indiana que se encontra fora da Índia está nas Guianas”, comentou Oliveira.

Os movimentos de independência

“O século XIX trouxe também outra geopolítica para a região amazônica das Guianas. As guerras na Europa se refletiram também ali. Começaram a surgir movimentos de independência das colônias das Américas e do Caribe”, disse o professor. Foi durante esse período que ocorreu o processo de reorganização dos territórios e a redefinição das fronteiras geopolíticas em toda a América. “O Brasil do século XIX por exemplo, era dividido em quatro regiões independentes e controladas pela coroa portuguesa, que só foram unificadas completamente no reinado de Dom Pedro II”, explicou Oliveira. Um evento pouco estudado que teve grande relevância para a unificação do Brasil e para a formação das fronteiras na região, foi a revolta da Cabanagem (1835-1840), que culminou com a criação da província do Amazonas no Brasil. “Até hoje existe uma grande lacuna para entendermos a relação do Império brasileiro com o Grão-Pará”, disse.

Particularidades

Outro ponto destacado pelo professor, foi a importância de se criar um outro olhar sobre a região. “Normalmente, ao se falar da Amazônia, os estudos estão sempre focados no meio ambiente e não em sua formação cultural. Mas entender as cidades e as forças produtivas a partir dos elementos humanos na região é determinante para compreender a nova regionalização da Amazônia”, salientou. Hoje, a Amazônia enfrenta uma série de problemas na questão das fronteiras e em conflitos entre fazendeiros e índios. E, apesar da política de integração que governos promovem desde a ditadura, o sudeste tende a conhecer muito pouco sobre a sua realidade. “Quando se tentam grandes projetos como a Transamazônica, são pessoas que não são nativos que esquematizam e implementam essas obras, e por isso tivemos grandes fracassos. A realidade da Amazônia é outra, sua construção histórica já ocorreu de forma separada do restante do Brasil e isso se reflete até hoje”, concluiu.

Matéria: Isabelle dal Maso
Fotos: Divulgação

Data do Conteúdo: 
segunda-feira, 3 Outubro, 2016

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