Ignacy Sachs prevê a transição da era do petróleo para a biocivilização

Por Luigi Parrini

Em palestra realizada no dia 28 de abril (segunda-feira) na FEA-USP, o economista Ignacy Sachs, professor emérito da École de Hautes Études em Sciences Sociales, da França, afirmou que os biocombustíveis marcam "o início do fim da era do petróleo" e que "o Brasil tem tudo para se tornar um ator de primeira importância na construção da biocivilização moderna".

O encontro foi a segunda sessão do ciclo Impactos socioambientais dos biocombustíveis, organizado pelo NESA – Núcleo de Economia Socioambiental da USP – e pelo NEREUS – Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos da USP. Os debatedores foram os professores Guilherme Dias e Danilo Camargo Igliori, ambos da FEA.

Sachs, especialista em problemas do desenvolvimento e em questões ambientais, disse que depois das revoluções agrária e das fontes de energia, com o advento do uso de energia fóssil, os biocombustíveis fazem parte de um processo que pode culminar na "biocivilização", a qual integram também outras utilizações da biomassa, tais como alimentos, fármacos e cosméticos.

O economista citou três contextualizações necessárias para o debate dos biocombustíveis: a discussão do que é a biocivilização moderna; a idéia, dada por ele como absurda, de que o problema energético do mundo pode ser resolvido pela simples substituição de combustíveis; e o fim do paradigma do neoliberalismo como resposta às necessidades da sociedade. A contestação desse modelo econômico foi iniciada de fato pela "descida da Argentina para o inferno", nas palavras de Sachs, no início desta década.

Ignacy Sachs também abordou políticas públicas relacionadas com o desenvolvimento de biocombustíveis no Brasil. O zoneamento ecológico econômico, cujo problema reside na estrutura fundiária; os critérios de certificação sócio-ambiental; as pesquisas incipientes em potencial fotossintético; a discriminação positiva do agricultor familiar; e a reorganização dos mercados internacionais para a cooperação entre os países em desenvolvimento foram os tópicos apontados.

Sobre a declaração recente de John Ziegler, relator especial da ONU para o direito à alimentação, de que os biocombustíveis colocarão em risco a segurança alimentar do planeta, o economista afirma que Ziegler "declara-se vencido antes da batalha", já que seu relatório indica soluções como a agricultura familiar e uma nova geração de biocombustíveis como possíveis soluções para o problema.

Ainda no âmbito das políticas públicas, o professor Guilherme Dias questionou a centralização das estruturas de distribuição dos biocombustíveis no Brasil. Ele citou o mercado de arroz como exemplo a ser seguido, "com estruturas pulverizadas de produção e distribuição, que caem em malhas locais primeiramente e definem depois o que segue como excedente".

Para Dias, o Programa Nacional de Produção de Biodiesel, que define os leilões coordenados pela estatal Petrobras como porta de entrada das produções de biodiesel de soja, reproduz o "ranço do sistema em que se organiza o processo em estruturas centralizadas". O professor enfatizou que a tendência de centralização está presente também na produção de etanol, já que o debate sobre concentração produtiva é "relegado a segundo plano".

No fim do encontro, Sachs retomou o questionamento levantado por Dias, ao dizer que "as soluções para a produção responsável de biocombustíveis tem que ser descentralizada, mas as políticas não necessariamente devem ser descentralizadas". O economista exemplificou que uma lei tem menos possibilidade de ser efetivada quando submetida ao crivo de muitas legislaturas municipais em vez da aplicação em nível federal.

Você pode assistir a gravação da palestra pelo IPTV no seguinte endereço:
http://iptv.usp.br/overmedia/visualizarVideo.jsp?_InstanceIdentifier=0&_EntityIdentifier=usp0nTUQfX-wgJb5Ngcj0msw-80R_Miz6XInko0z-hsFWg.

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 29 Abril, 2008

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