20 anos do Plano Real - Luque e Sayad discutem causas da inflação

Por: Nicolas Gunkel


No dia 30 de setembro, em época de eleições presidenciais e no ano que marca duas décadas da implementação do Plano Real, dois professores da FEA participaram de um debate sobre as origens históricas da inflação, pauta que voltou a permear as campanhas deste ano. Carlos Antônio Luque, presidente da Fipe, e João Sayad, ministro do Planejamento do governo Sarney, caracterizaram o fenômeno inflacionário, suas principais causas, e os planos de estabilização econômica adotados pelo Brasil a partir da década de 1980. A discussão foi mediada pelo professor João Amato, chefe do departamento de Engenharia de Produção da Escola Politécnica. O evento, organizado pelo Grêmio Politécnico, foi parte da II Semana dos Politizados.

 

Segundo Luque, inflação é o "aumento contínuo e persistente dos preços ao longo do tempo". Mais filosófico, Sayad considera o fenômeno inflacionário uma "distorção do dinheiro, a instituição fundadora da economia capitalista".

 

Entre a Segunda Grande Guerra e a implementação do Plano Real, período no qual a inflação anual chegou a atingir cerca de 5000%, especialistas apontavam o déficit público como o grande vilão do aumento dos preços. "Em linhas gerais, seria o governo gastando mais do que arrecada na forma de tributos. Sem nenhuma alternativa para efetuar financiamento desse excesso de gastos, o governo emitia moeda, e esse aumento causava a inflação", explicou Luque.

 

Outro fator que pressionava a inflação, alegavam economistas ortodoxos à época, seriam as baixas taxas de desemprego. Segundo seu raciocínio, o pleno emprego fortaleceria o poder de barganha dos trabalhadores, que conseguiriam aumentar seus salários, gerariam mais demanda e causariam o aumento dos preços. A lógica partia do pressuposto de que a oferta era inelástica, isto é, a produção não acompanharia o crescimento do consumo e os preços subiriam. Luque, explicou, no entanto, que economistas de corrente heterodoxa comprovaram que a estratégia de forçar o aumento do nível de desemprego era "ineficiente". "Você poderia promover alta taxa de desemprego e, mesmo assim, os ganhos que se obteriam para a redução da taxa de inflação seriam reduzidos".

 

Sayad reconheceu que existe uma relação " o mínimo correlata" entre inflação e desemprego, mas negou que valha a pena manter uma pequena taxa de desemprego para conter a inflação. Para ele, os mais pobres sofrem mais com a falta de trabalho do que com a instabilidade dos preços."Quem sempre se levantou contra a inflação foi o FMI, e não a ONU. Nos Estados Unidos, foram os republicanos, e não os democratas. Para a população, o desemprego parece pesar mais que a inflação", ressaltou.

 

A indexação da economia também foi apontada pelos professores como uma das vilãs do fenômeno hiperinflacionário. Em um sistema em que todos os preços e salários eram reajustados de acordo com os índices oficiais de variação de preços, à medida que o valor de um produto ou serviço subia, todos os outros preços também eram afetados. "Os planos de estabilização tinham que quebrar os mecanismos de indexação. E para isso, os preços e salários foram congelados", lembrou Luque. "E nesse sentido, todos os planos tiveram sucesso relativo. A taxa de inflação caiu". Mas não por muito tempo. Após o fim do congelamento dos preços, a inflação tornava a disparar por conta da chamada memória inflacionária (inflação acumulada) e pela expectativa futura de congelamento de preços. O mesmo ocorreu sucessivamente com os planos Cruzado, Bresser, Verão e Collor, até a chegada do Plano Real.

 

Por que o Plano Real foi diferente?

Segundo os professores, o sucesso do Plano Real foi uma soma do aprendizado dos planos anteriores, da conjuntura de maior abertura da economia brasileira, e de um novo modelo de indexação baseado na política cambial.

 

"A abertura da economia brasileira permitiu que fizéssemos uma variante dos planos anteriores, fundamentalmente baseada na chamada lei dos preços únicos. Era mais ou menos o seguinte: assumindo que não houvesse custos com transportes e congelando a taxa de câmbio, uma laranja aqui na cidade de São Paulo deveria custar o mesmo que uma laranja vendida na cidade de Nova York", exemplificou Luque.

 

O dólar como novo indexador foi uma alternativa ao congelamento de preços. "Ao invés de fixar os preços, o plano fixou as taxas de câmbio", explicou Luque. "Os vendedores e fornecedores até poderiam tentar aumentar, mas automaticamente entrariam na economia brasileira produtos importados que segurassem os valores".

 

"Como o Plano Real acabou com a inflação? Acabando com a indexação e fixando o câmbio, coisa que os outros planos não podiam fazer", esclareceu Sayad.

 

A culpa é de quem?

Segundo Sayad, os economistas e a imprensa tradicionalmente apontam o governo como responsável pela inflação, mas ele não deve levar a culpa sozinho. "Não é só o governo que emite dinheiro para pagar seus programas. Os bancos emitem dinheiro, nós emitimos dinheiro", destacou. "É uma tarefa muito complexa. Não é à toa que os presidentes que conseguiram controlar a inflação e restabelecer a ordem econômica viraram grandes líderes políticos em seus países".

 

Sayad também acredita que os próprios economistas têm sua parcela de culpa no fenômeno inflacionário. "Os economistas são culpados por muitos pecados e um deles é a indexação. Os índices de preços foram inventados pelos economistas e começaram a ser usados para reajustes e barganha salarial. Se o tomate aumentou de preço porque simplesmente não choveu, isso já implica o aumento do salário. Não por causa do Banco Central ou do governo, mas por causa desta fé mítica no índice de preços", criticou.

 

Inflação hoje

Para Luque e Sayad, a pressão inflacionária que volta a fazer parte do noticiário econômico é diferente daquela que foi combatida pelo plano real e não pode ser combatida com importações. "Hoje, o problema é mais complicado. Houve um crescimento, talvez excessivo, do setor de serviços, que tem puxado bastante a inflação. Produtos, você importa, mas funcionário público, judiciário, dentista, não tem como você trazer", afirmou Sayad.

 

Luque lembrou que, logo após os primeiros meses do Plano Real, o setor de serviços também ameaçou puxar a inflação para cima, mas sua expressividade era menor. "Foram o aluguel, mensalidades escolares, serviços e planos médicos, mas como o resto da economia estava estabilizado, eles não conseguiram manter [o aumento]", recordou.

Evento na íntegra
Fonte: FEA

Data do Conteúdo: 
terça-feira, 7 Outubro, 2014

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