Apesar da mecanização, o trabalho do auditor não desaparecerá

Autora: Beatriz Arruda

O impacto de uma auditoria de qualidade no mundo dos negócios foi tema da palestra “O efeito em cascata de uma auditoria de qualidade”, realizada no dia 29 de março, em comemoração à inauguração da nova Sala de Talentos do departamento de Contabilidade e Atuária da FEAUSP. Grégory Gobetti, sócio de auditoria da Ernst&Young, acredita que a auditoria tende a se tornar cada vez mais mecanizada, mas não decreta o fim do ofício, e sim uma melhora na qualidade dos serviços realizados.

Hoje em dia, as pessoas não estão buscando apenas um emprego e um salário, elas procuram por uma empresa que tenha uma identidade e um propósito relacionado com os seus próprios valores. Segundo Grégory Gobetti, a Ernst&Young, pensando nisso, desde 2013 vem trabalhando com o lema ““Building a better working world” (“criando um mundo de negócios melhor”), reajustando-se às demandas do mercado. “Mais e mais as pessoas estão escolhendo aonde elas vão trabalhar, estão se autoconhecendo e procurando empresas que tenham essa conexão dos valores do empregado e da empresa”, afirmou.

Ao observar o trabalho do auditor, é difícil entender como ele pode melhorar o mundo de negócios. Na verdade, sem essa função, muitas empresas não estariam funcionando e, consequentemente, as inovações também não existiriam. A auditoria cuida para que informações adequadas e transparentes sejam fornecidas aos mercados de capitais, colaborando para um mundo de negócios melhor e seguindo todos os padrões estabelecidos pelos órgãos regulamentadores. Uma auditoria que não funciona adequadamente pode impactar a empresa, o país e, indiretamente, as pessoas. Uma fraude que passa despercebida pela auditoria, por exemplo, pode levar uma empresa à falência, além de sujar a imagem do país e acarretar a demissão de pessoas.

No entanto, nem sempre se deve culpar o auditor quando as coisas dão errado. No caso da Petrobras, as informações já chegavam ao auditor manipuladas. Falsificação de informações e dados deve ser investigada pela polícia, e não pela auditoria. “Quando você tem uma cadeia organizada de informação e manipulação, é muito difícil o auditor capturar o problema. Nosso trabalho precisa de certo grau de ceticismo, mas não somos a polícia e não fazemos investigação”, reiterou Gobetti.

Como é um trabalho que envolve pessoas, falhas realmente podem acontecer. Mas atualmente há uma regulação cada vez maior em relação aos auditores, garantindo um serviço eficiente e qualificado. Além disso, é responsabilidade do auditor planejar o seu trabalho, levando em consideração, inclusive, a possibilidade de falhas. Na Ernst&Young, cada trabalho de auditoria começa com uma reunião que discute quais seriam as possibilidades de incentivos de fraude. “Se eu acredito que a empresa está exposta a fraudes, é meu dever fazer procedimentos adicionais”, disse. “E se a empresa não é confiável, não tem motivos para aceitar esse cliente”, completou.

Além de impactar o sistema financeiro e o mercado de capitais, a auditoria é importante para outras áreas. Em um determinado momento da vida, todos vão sentir a necessidade de ganhar um dinheiro extra para o futuro, uma aposentadoria, que pode vir de investimentos e ações. Cabe ao auditor garantir que os investimentos são seguros e que o cliente pode investir neles. As inovações, que movem o mundo, precisam de investimentos para serem desenvolvidas. Os investimentos, por sua vez, precisam de uma grande quantidade de recursos, que podem ser adquiridos via empréstimos e abertura de capital. O auditor assegura que as ações que os investidores têm interesse estão adequadas. “Em resumo, todas as nossas decisões de negócios partem de números confiáveis. Um trabalho de auditoria ajuda a criar um mundo de negócios melhor por causa dos números estáveis”, garantiu Gobetti.

O auditor também é necessário quando empresas realizam doações. São eles que certificam que os recursos estão sendo usados da maneira correta. “O trabalho de um auditor é uma das engrenagens de uma grande máquina e se não for feito com diligência, competência e muita paixão, pode não funcionar adequadamente e toda essa engrenagem pode quebrar”, ressaltou.

Na atualidade, a tendência é automatizar vários serviços. Muito em breve, a auditoria que se faz hoje não vai mais existir. Isso não significa que a profissão vai acabar, mas que alguns processos que hoje são comuns vão desaparecer. “A auditoria continuará. Inclusive, eu não consigo imaginar outra função que venha substituir a auditoria. Mas nós temos que mudar o modelo. É preciso mecanizar cada vez mais”, finalizou.

Data do Conteúdo: 
quinta-feira, 20 Abril, 2017

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