Movimentos Sociais: Como ocorre o cooperativismo nos assentamentos?

No dia 26 de fevereiro, aconteceu na FEAUSP o seminário “De sem terra e assentado – entre cooperativismo e individualismo”, organizado pelo Center for Organization Studies (CORS) e ministrado pelo professor Olivier Vilpoux da Universidade Católica Dom Bosco – Campo Grande, Centro de Tecnologia e Estudo do Agronegócio. Especialista na área de agricultura familiar e não familiar e tendo como ponto de partida a forma como se desenvolve o cooperativismo em assentamentos do MST (Movimento Sem Terra), o professor focou principalmente a região do Centro-Oeste para realizar sua pesquisa, os estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, uma área que é equivalente ao tamanho da Europa e que possui um grande vazio populacional.

Hoje no Brasil são mais de 1,2 milhões de famílias assentadas, ocupando um total de 9% do território nacional. Quase a totalidade dessas famílias teve acesso à posse da terra por meio de reinvindicações de movimentos sociais como o MST, o que gerou uma “forte interdependência entre os atores”, como explicou o professor: “as pessoas participam do movimento social para ter acesso à terra, mas existe uma grande diferença entre objetivo comum e cooperação”, pontuou. Essa diferença se torna mais evidente depois do assentamento, quando os objetivos comuns mudam, uma vez que o principal interesse das pessoas passa a ser cultivar a própria terra. “Depois que as famílias já estão assentadas, existe muito pouca participação nos movimentos”, disse o professor.“A participação no cultivo das áreas comuns também é quase nula”, acrescentou.

Em sua pesquisa, Vilpoux também observou grandes dificuldades para o desenvolvimento do cooperativismo entre os assentados, mesmo quando a cooperação pode ser benéfica para ambas as partes. O professor destacou que apesar de grande parte dos assentados participarem de associações, não significa que exista cooperação. “É complicado, pois a maior parte dessas associações são feitas para receber benefícios políticos; não existe quase nenhum custo para os associados e elas também não produzem nenhum insumo”. Além disso, entre os assentados, não existe a percepção de benefícios a longo prazo, nem uma cultura homogênea, que seja capaz de unir pessoas oriundas de todas as regiões do Brasil, com passados muito diferentes. “O agricultor não percebe a importância de se trabalhar junto. A mentalidade criada pelos movimentos sociais é individualista, então existe certa má vontade em se cooperar. Você quer ser seu próprio chefe, ter seu próprio pedaço de terra. E também existe um custo em se trabalhar com o vizinho, abrir mão de sua liberdade, por exemplo, é um custo alto”, concluiu.

Autora: Isabelle Dal Maso

Data do Conteúdo: 
Quarta-feira, 2 Março, 2016

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