Fishlow diz que crescimento do país não passa por solução mágica

Autora: Cacilda Luna

FishlowEm palestra no último dia 10 de agosto na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, o economista Albert Fishlow, professor emérito da Columbia University (EUA), defendeu a renovação do Congresso brasileiro, sem a possibilidade de reeleição para os parlamentares envolvidos em corrupção, como uma das formas de tirar o país da crise econômica e retomar o caminho do crescimento. Paralelamente, sugeriu que o governo converse abertamente com a sociedade sobre a verdadeira realidade da economia e admita que não existe “solução mágica”. 

“Podemos ter um grupo mais jovem no Congresso, sem os compromissos feitos anteriormente, com capacidade de debater a economia. Não acreditar que haverá uma solução mágica vinda do petróleo, com preços de 40 até 50 dólares por barril nos próximos anos, nem que os preços das commodities terão um novo ‘boom’. Assim, o Brasil terá a oportunidade de chegar a um desenvolvimento sustentável em vez de ter ciclos rápidos de crescimento. Com essa realidade, acho que começamos de fato a renovação”, afirmou Fishlow.

Convidado pelos professores José Roberto Savoia, Daniel Bergmann e Fabiana Lopes da Silva, Albert Fishlow falou sobre os “Caminhos da Reconstrução do Brasil”, uma discussão sobre os aspectos atuais das reformas no Brasil após a crise de credibilidade. Com uma vasta obra sobre a economia brasileira, tema ao qual se dedica há 50 anos, o economista americano criou o Centro de Estudos sobre o Brasil na Columbia University e foi um dos responsáveis pela estruturação do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), fundação vinculada ao Ministério do Planejamento.

Após falar sobre os fatos que antecederam a crise no país, passando pelos governos Lula, Dilma e Temer, Alberto Fishlow disse que o brasileiro hoje deseja um crescimento maior para o país, inflação sob controle (entre 3 e 4%), distribuição maior da renda, oportunidades de educação e controle da violência. “O brasileiro quer um mundo melhor, não só para ele, mas também para os filhos, que pela primeira vez estão nos municípios procurando emprego, procurando a possibilidade de ter algo mais positivo”.

O que seria necessário para chegar a esse cenário? Para Fishlow, há necessidade de uma reforma política real, solucionar o déficit fiscal e o aumento da dívida interna, e reduzir a dívida externa da Petrobras que hoje equivale a quase 70% da dívida interna. Além disso, o economista sugeriu maior participação do comércio externo no país, aumento do investimento em educação e, por fim, o aumento da poupança interna como forma de aumentar os investimentos. Segundo ele, a taxa de investimentos está em torno de 14% do PIB.

No entanto, ao ser questionado de que forma o país poderia aumentar a poupança interna num quadro de desemprego grande e de baixo consumo, Albert Fishlow reconheceu que não se pode conciliar as três variáveis. “Esse é o problema, não é? A resposta é a impossibilidade de ter as três coisas acontecendo ao mesmo tempo”.  A queda radical do consumo, um dos fatores responsáveis pelo aumento do desemprego, poderia ter sido evitada, segundo avaliação do professor da Columbia University, caso o Banco Central tivesse reduzido a taxa Selic há pelo menos um ano.

Fishlow também criticou a concessão de crédito subsidiado a empresas, fartamente adotada no governo Dilma, com recursos do BNDES, Caixa e Banco do Brasil, afirmando que não é uma política inteligente. “Tem que parar com esses subsídios. Tem que aceitar a limitação, que é uma realidade, e explicar à sociedade. Assim como ter uma discussão com o povo, explicando as verdadeiras razões do desemprego. Não dá para ter desemprego de um lado e a redução de juros não acontecendo até agora, sem ter uma discussão com o povo, explicando as verdadeiras razões”.

Data do Conteúdo: 
sexta-feira, 11 Agosto, 2017

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